DE NOVO, IDADE.

Tinha apenas uma condição: as reuniões de briefing deveriam ser sempre no mesmo lugar. Justificava para os clientes que o café extra‐forte do boteco localizado na Rua Afrodite estimulava sua criatividade de modo que ambas as partes sairiam ganhando. Na verdade a escolha era por comodismo. Carlos era preguiçoso, mas acreditava ter cainofobia (esse medo de novidades fora “descoberto” na primeira e única sessão de terapia que já participou, realizada por uma cliente que não podia pagar seus honorários).

Também avesso as novas mídias, o esquema se dava da seguinte forma: o cliente de coração partido era impactado por um de seus milhares de cartazes que, driblando a lei cidade‐limpa, comunicavam apenas três níveis de informação:

  1. Trago seu amor de volta
  2. Ou quem voltará é o seu dinheiro
  3. Contato: Love@me.com.vc

Nas sessões de brifoterapia, além de arcar com o café, o cliente deveria trazer uma imagem do desejado(a) e um breve resumo (em até 140 caracteres) da fracassada história dos ex‐amantes. Dois dias depois, o usuário/contato acima populava a caixa de entrada do freguês com uma mensagem na qual o mesmo só teria o trabalho de encaminhar para a pessoa amada e apagar o remetente original. Nunca havia fracassado, de modo que rapidamente se livrava do dinheiro recém conquistado (tinha medo do novo). Sabia que nunca haveria de retornar o saldo aos miseráveis consumidores, muito ocupados em ocupar as camas de terceiros.

Ilustrando seu sucesso: havia conquistado em duas oportunidades o cupido de ouro na categoria traição, no Festival Internacional do Amor Literário, realizado anualmente no sul da França (também possuía uma prata na categoria agressão e viria a ganhar um bronze em afinidades). Alem disso, havia sido convidado por um agudo numero de clientes para comparecer em suas festas matrimoniais, o que de maneira educada recusava por temer misturar o profissional com o pessoal (indecisão nesse aspecto quanto ao novo, preguiça ou ambos). Mas se gabava de cada convite, lustrava cada premio religiosamente.

Era uma quinta‐feira. Ainda arrotava Campari e flertava com a ressaca. Doses cavalares de álcool barato o faziam esquecer das costumeiras derrotas de um time que nunca chegara a torcer. Estava estabelecida a rotina: atenderia uma cliente de nome incomum (seria Jandira?) e escreveria sua mensagem acompanhando de Bombeirinhos (50% Cachaça, 50% Groselha) para apagar o fogo da noite anterior.

Sentou na mesa de sempre, na cadeira de sempre. Dispensou o cardápio e olhou para o balcão, juntando o polegar e o indicador num sinal que evidenciava o pedido de cada dia. Foi ai que a merda aconteceu. A pouco atraente e nada desenvolta garçonete não se limitou a despejar aquele petróleo em seu copo americano. Ela sentou. De frente para o solitário e bem sucedido protagonista. E o fez logo infringindo uma de suas únicas polices. Ao invés de uma foto do pretendente, trouxera um álbum completo, como um numero de imagens que beirava 3 algarismos. Todas as imagens eram de Carlos, sempre em seus encontros profissionais naquele mesmo ambiente. Jandira (ou seria Janete?) apenas deixará o arquivo sobre a mesa banhada em gordura (quarta tem feijoada), com um envelope que continha as cifras pré-estabelecidas e o necessário e conciso brief, que dizia: Há anos que você vem aqui e acaba com a aflição de milhares de desconhecidos. Será que consegue acabar com a de um familiar?

Com frieza, virou o café e assimilou a derrota. Deixou o dinheiro sob a mesa e se levantou. Estava na hora de ter um novo escritório.

Texto: Pedro Bergamo