Barberidade

1996.

Foi o primeiro lugar que frequentou em São Paulo desde que deixara a família na divisa do Mato Grosso do Sul para ganhar a vida na cidade grande. Sentiu-se acolhido.

Manoel não apenas cortava cabelos a um preço honesto, mas também fazia as vezes de terapeuta para os que frequentavam sua barbearia localizada na Avenida São João. Era um estilo de análise diferente, nunca explorando por Freud nem difundido por Lacan. Ao invés de debater o significado dos sonhos ou a influência dos pais em nossa mesquinha miséria, a disciplina basicamente consistia em discutir amenidades da maneira mais séria possível. Da capa da Playboy vigente, passando pelo árbitro que estragara o domingo alheio e finalizando nas críticas a um político corrupto que ninguém sabia ao certo como operava.

Os clientes saiam leves e o peso não era só a falta de cabelo.

Há quase duas décadas, sempre que algum assunto o deixava enfermo, Carlos entrava na tesoura. Era como se os problemas fossem parcialmente embora junto com seus oleosos fios capilares. Ainda dão risada quando lembram que logo após sua primeira demissão, o protagonista chegou pedindo máquina zero. Gostava daquele trabalho.

Essa manhã.

Acusava hálito alcoólico, hábito também compartilhado pelo barbeiro de descendência lusitana.

Ao avista-lo daquela forma, Manuel não se surpreendeu. As entradas denunciavam o desespero, acusavam o golpe. Mas Carlos não temia ser largado pela mulher, virar protagonista de tema carnavalesco ou ser fritado pelo escaldante sol daquele Fevereiro. Seu medo era não haver mais motivo para frequentar aquele ambiente. Estava careca de saber o quão importante aquelas sessões eram para ele.

Tratamento? Cogitou medicação, medida logo dispensada ao ser comunicado pelo Google sobre os (im)potencias efeitos colaterais da droga (nesse caso temia ser largado pela mulher). Estava sem um fio de esperança.

11h53

Custou a entender que o copo estava meio cheio. A queda dos cabelos representava um comportamento orgânico recorrente no tratamento inventado pelo espirituoso artista português. Cada fio de cabelo dissidente representava uma preocupação que ia embora de maneira definitiva. Havia perdido tudo, deixando de lado problemas que já nem lembrava mais a natureza. Esquecera o nome do canalha que roubou sua promoção, não lembrava da goiana que triturou seu coração. Estava em um estado elevado.

Recebeu alta.

Toda primeira terça-feira do mês.

Carlos e Manuel se encontravam no boteco em frente ao consultório do segundo. Pediam fritura, ingeriam álcool e falavam amenidades. Único assunto mais sério dizia respeito ao problemático primogênito do primeiro, garoto que colecionava notas baixas e cultivava madeixas agudas. Estava se tratando com o amigo.

Texto: Pedro Bergamo