Crônicas de uma criança grande.

“A gente fica sábado e domingo em casa e trabalha todos os outros. Não ta certo isso”

Cinco anos na vida louca já eram suficientes para emplacar o maior dilema da humanidade depois de “ser ou não ser, eis a questão”. Assim, ele acordava numa segunda-feira cinza, sem graça, sem animo. Não tinha estímulo. Garoou à noite toda e não haveria parque nem tão pouco pega-pega no jardim. Seguramente, longe do barro feliz, hoje a aula se dividiria entre o DVD e as atividades de pintura.

“É um saco ficar o dia todo trancado na sala”. Traduz-se o “dia todo”, meio período. Realmente uma eternidade mórbida. Ele não fazia idéia que essa prisão era à realidade nossa de cada dia, em tempo integral. De fundo veio uma voz, ainda menos entusiasmada, retrucando: “Você vive no paraíso e não sabe”. Levantou os ombros e fez cara de “ué”. Não entendia ao certo porque classificava de paraíso aquele lugar que tinha uma generala, com um arsenal de gizes e canetas, pronta a atirar números e letras para todos os lados. Senão tivessem nomeado esse ambiente de escola, certamente haveria menos confusão. E eles lembrariam apenas que vão lá para evoluírem junto aos colegas, trabalhar brincando, transformar uma rotina cansativa em desenhos coloridos cheios de vida…

A ressaca, pós final de semana, também é realidade na turma do jardim II. Não à toa. Teve reencontro com os amigos e festa com open de bar de refrigerante até de madrugada. “Eu tomei cinco copos de coca-cola! Você nem viu”. Quase uma overdose. “Nossa mamãe, hoje a gente bateu o recorde! O relógio está todo zerado!” Exclamando sorridente, sentia-se grande, beirando a adolescência, ao chegar meia noite em casa. Os horários eram mais flexíveis, as obrigações menos rigorosas. Acordar tarde era permitido e almoçar assistindo à sessão da tarde também.

 “Mãe, posso tomar banho amanhã?” Não. Não sofria da Síndrome de Cascão. Era apenas o simples prazer de quebrar aquela regra imposta aos sete dias da semana. Burlar o banho do dia era um ato heróico em prol da libertação infantil. “Independência ou morte” disse Dom Enzo Pedro I às vésperas de entrar na ducha. Comemorava o sim ao ouvir: “Vai ter que acordar mais cedo amanhã então”. Orgulhoso, fez que ia ceder, mas aceitou e vociferou por dentro: “Como é difícil ser criança”. Dormir com o pé sujo e o cabelo tigela ensebado rendeu a lição. Não se escapa da responsabilidade amanhã fugindo dela hoje.

As crianças tendem a imaginar a vida com a nossa idade, com as nossas obrigações, com a nossa falsa liberdade. Essa história de espelho não é balela. A imagem refletida mais próxima de um amanhã, no qual, eles serão nós. Uma verdadeira viagem poética de projeção. Uma mistura de contextos, da realidade que vivenciam com aquela que convivem, posicionando-se imensamente melhores que os exemplos que recebem.

– Vamos brincar de mamãe e papai. Papai vai lavar a louça!

– Não, eu não! Lá em casa é minha mãe que lava.

– Mas na minha é meu pai.

– Então vamos nós dois. Você lava, eu seco!

 Com chuva ou não, entre surtos de responsabilidades e espasmos de lazer temos tudo que precisamos: Uns aos outros e uma pia suja cheia de bom humor. Não há dúvidas. A semana será perfeita!

Por Tainá Mattoso