Todo dia ela faria tudo sempre igual: Cotidiano Mãe.

Todo dia ela faz tudo sempre igual e sacode às 6h da manhã…

Não! Espera ai Chico Buarque. É mais cedo! E sacudir ao amanhecer é hipérbole. Esse horário a gente se arrasta.

O despertador soa Racionais Mc’s às 05h30.“Vamo acorda, vamo acorda, porque o sol não espera demorô, vamo acorda, o tempo não cansa. Ontem a noite você pediu, você pediu…. uma oportunidade, mais uma chance…” Nada de ativar função soneca do celular e entrar em transe com aqueles cinco minutinhos. A perua escolar não espera e a trabalhadora assalariada, CLT, não pode dedilhar o ponto eletrônico atrasada, porque faz falta $ no dia 30.

Hora de vestir a alma de mulher maravilha e sacudir um garoto lindo, de sonhos de super-herói infinitos e sorriso fácil mesmo que madrugando. Ele parece não se importar muito com o horário, ao contrário dela que pensa nem ter dormido ainda. Deve ser o frescor da pouca idade. Ou talvez seja o peso da responsabilidade que carregam essas crianças de trinta anos. Ou ainda, as duas coisas juntas e misturadas.

Em 15 minutos – mais ágil que uma tartaruga – a vida se transforma. O céu que estava escuro, ao abrir os olhos grudados, tornou-se claro, assim como o rosto que fora lavado com a torneira semi-aberta para evitar o desperdício. “Eu sei mãe, vou abrir pouquinho prá não secar a Cantareira”. O bafo de onça tinha se transformando em menta natural com partículas cristalizadoras. Parou tudo! “Essa é a minha pasta de dente!” pensou e logo disse:“Filho, a sua é a do bob esponja essa faz mal!” 15 minutos também rendem uma pequena discussão sobre os malefícios do creme dental de adulto nos molares de leite de uma criança arteira.

A prática versus a perfeição. Tudo isso já de uniforme e tênis. Engano pensar que se escorraçava o filho do ninho assim. Era uma mãe apaixonada pela sua cria, não um carrasco impiedoso pronto para despachar o corpo à escola. Posto às ordens, dormindo mesmo, embaixo do cobertor quentinho. “Mãe, não sei por que você coloca minha calça, sabe que menino sempre faz xixi quando acorda prá abaixar o p*”. Sorrindo deixou passar e foi se arrumar. O primeiro parágrafo não mentia. Ele realmente tinha um bom humor matinal invejável.

Pega a mala, penteia o cabelo, o suco tem que ser gelado, o lanche ainda está guardado no armário…
Ela diz: “Pegou a jaqueta? Pode fazer frio!” Ele responde: “Tem bilhete na agenda, precisa assinar, você não viu?”

O intervalo entre chamar o elevador e descer ao térreo também é tempo, curto, mas suficiente para tomar um toddynho e ouvir as três lições básicas do curso de sobrevivente sem mães por perto:

1 – Respeita sua professora e qualquer problema pede para me ligar.
2 – Pega um “verdinho” no almoço, faz bem prá saúde viu?
3 – Quando for ao banheiro só para de se limpar quando o papel estiver branquinho, entendeu?

 

Tio Wagner já estava parado em frente ao prédio esperando. Restaram 30 segundos para cuspir na mão e abaixar o rodamoinho que ele tem na franja, dar um beijo forte e um abraço. Vê-lo partir e clamar ao invisível em silêncio: “Que os anjos te guiem e te guardem, eu te amo”.

A dimensão do cansaço pouco importava. Todo dia ela faria tudo sempre igual, acho até que faria melhor que ontem, menos que amanhã.

Por Tainá Mattoso