O que produz uma lenda do esporte?

É fato que todos nós estamos sempre buscando ícones que possam ser a representação de tudo aquilo que gostaríamos de ser. No esporte, esses ícones são carregados de simbologia que os tornam heróis capazes de transcender o mundo dos esportes e tornarem-se direcionadores culturais, onde independente do que aconteça sempre serão seguidos.

Um desempenho brilhante é pré-requisito, porém nem todos os grandes atletas rompem essa barreira do campo do esporte para tornarem-se ícones culturais. Um atleta que se torna um ícone, geralmente representa um ideal de um povo, e é por isso que o ser humano é tão carente deste personagem tão poderoso.

Um bom exemplo é um dos maiores ídolos brasileiros de todos os tempos, Ayrton Senna. Ele era uma espécie de herói, extremamente competitivo, com atitudes até discutíveis para conseguir atingir seus objetivos mas que tinha no seu discurso o amor pelo que fazia e o amor pelo Brasil. Senna viveu o auge de sua carreira em um momento em que o Brasil passava por uma espécie de ‘crise de autoestima’ e tudo isso fazia com que ele fosse para o brasileiro a representação perfeita de um ideal e de algo que esse povo sempre careceu muito, o orgulho.

Mais de duas décadas depois do acidente que matou Ayrton Senna na pista de Ímola, em 1º de maio de 1994, a marca do piloto continua a ser uma das mais valiosas e rentáveis do esporte brasileiro. Segundo um estudo do instituto Ibope Repucom que analisa a percepção da população sobre celebridades – o Celebrity DBI – Senna é a personalidade com mais aceitação entre os brasileiros.

No total, 89% da população em geral admira o piloto – percentual maior que o de ídolos como Ronaldo, Neymar, Gustavo Kuerten e Pelé.

Pelé é outro bom exemplo nacional que ultrapassou, e muito, o status de atleta para se tornar uma lenda. O atleta do século sabia como poucas pessoas no mundo usar o poder da própria imagem, mesmo antes da tecnologia aparecer. Foi assim que ele parou uma guerra. Foi assim que até os gols não marcados entraram para história.

O valor da marca Pelé é imensurável, mas quem se atreveu a colocar seu nome na ponta do lápis apontou para algo em torno de US$ 500 milhões, o que o coloca entre as cinco marcas mais valiosas do mundo. Tem museu com seu nome e ainda é um dos esportistas mais requisitados do mercado publicitário: só na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, ele faturou quase R$ 60 milhões. Tudo isso quase 40 anos após a sua aposentadoria!

No cenário internacional existem casos ainda mais expressivos. Quem não se lembra do burburinho causado pela chegada de David Beckham à Major Soccer League (MLS)? Já no fim da carreira, o astro inglês recebeu US$ 275 milhões para dar visibilidade ao futebol jogado nos Estados Unidos.

Agora, mesmo depois da aposentadoria, é impossível negar que o ex-meia de Real Madrid e Manchester United foi o primeiro jogador de futebol a romper as barreiras do esporte para se tornar um ícone da cultura pop.  Até filme – Bend It Like Beckham – já fizeram em sua homenagem! Fora dos gramados há três temporadas, a marca Beckham ainda é capaz de gerar mais de US$ 20 milhões por ano. Foi ele quem abriu as portas do mercado para outros fenômenos, como Cristiano Ronaldo e Neymar.

Falando em Cristiano Ronaldo, sabe qual é o perfil de Facebook mais popular do mundo? Com mais de 102 milhões de likes, Cristiano Ronaldo desbancou nada menos do que a rockstar colombiana Shakira na rede social no início deste ano.

Com três títulos de melhor jogador do mundo no currículo, já não há quem duvide de seu potencial dentro de campo. Difícil é saber onde ele rende mais: nas quatro linhas ou fora delas. Cristiano Ronaldo já virou inclusive tema de estudo de uma universidade canadense: como se constrói uma lenda no futebol?

Mas nenhum ídolo do esporte teve um impacto cultural em uma geração tão grande quanto Michael Jordan.

Feche os olhos e pense em NBA: qual a primeira imagem que vem à sua cabeça? Não tem erro: a camisa 23 do Chicago Bulls. Jordan foi um atleta excepcional, que parecia literalmente voar em quadra, seis vezes campeão da NBA e cinco vezes eleito MVP (melhor jogador da liga).

Apesar de ser um fenômeno dentro das quadras, foi fora dela que ele se transformou em uma lenda. Jordan foi um dos pilares da ascensão da Nike. Os produtos “Air Jordan” chegaram a corresponder a 4% do faturamento anual da marca, gerando cerca de US$ 400 milhões.

O seu impacto cultural foi tão forte que aposentado desde 2003, o ex-atleta tem 26 milhões de seguidores no Facebook e é figurinha carimbada em filmes, seriados, clipes e tudo o que está relacionado ao showbizz. Atualmente, Michael Jordan é dono do Charlotte Hornets e consegue faturar cerca de US$ 80 milhões em patrocínios.

Do outro lado da moeda dos ídolos do esporte, estão os grandes atletas, premiados, reconhecidos e indiscutivelmente excepcionais no que fazem mas que não conseguiram, ainda, romper a barreira do esporte para se tornarem ícones.

08magcovers-gif-blog480-v5É o caso por exemplo do argentino Messi, que quando comparado ao rival português Cristiano Ronaldo, fica atrás em todos os quesitos como marca, apesar de dentro das quatro linhas ser até mais vitorioso.

 

Outro caso polêmico é do jogador da NBA Lebron James. Os americanos sempre se baseiam muito em estatísticas para comparar jogadores, e mesmo tendo grandes chances de Lebron, também conhecido como “The King”, ultrapassar Michael Jordan em número de pontos e vitórias pela liga americana, poucos defendem que ele irá superar Jordan como o maior jogador de basquete de todos os tempos. Isso por um simples fato, Jordan foi um revolucionário muito além das quadras, Lebron ainda é o The King só dentro dela.

No fim do dia para que novos Jordans, Sennas, Pelés e Beckham surjam, é preciso ter autenticidade. Assim como no mundo dos negócios, não há marca forte que sustente um posicionamento ou uma imagem por décadas se não houver verdade naquilo que ela diz ao consumidor. Dessa mesma maneira, um ídolo de verdade se constrói pelas suas atitudes genuínas ao longo de sua carreira e mesmo depois do fim dela e não pela superexposição de mídia muitas vezes forçada pelos seus patrocinadores. Potenciais ídolos aparecem todos os dias, alguns poucos se transformam em lendas e outros muitos somem com o passar do tempo. São efêmeros.

Com o crescimento das redes sociais a figura do ídolo ganhou novos modelos e atualmente muitos talentosos atletas com potencial para abraçarem este processo de mitificação sucumbem com as cobranças do dia a dia e não sustentam o título que lhes foi imposto precocemente. Cada vez mais enxergaremos ”ídolos“ que durarão um ano ou grandes atletas com alto potencial que não atenderão a expectativa de substituir alguém que eles nunca foram.

Por Felipe Meretti