Sobre a vida e a morte de um amigo.

Se existe uma certeza que a gente tem na vida, além da morte, é que tem gente que demora para morrer dentro da gente. Há algumas semanas atrás fui atravessada com a notícia da morte de um amigo. E enquanto muita gente ao meu redor se impressionava, plausivelmente, com a morte de um cantor, eu vinha tentando lidar com o fato de uma pessoa muito importante pra mim ter falecido.

Esse cara foi quem me fez entender, na época em que ainda tinha muita coisa sendo construída dentro de mim, que existia um universo enorme além da minha cidade do interior. Que tinha gente cantando o que eu queria dizer, mas não conseguia. Mas ao me transformar em uma pessoa maior, a gente também se afastou. Porque eu cá e ele lá dificultava nossa convivência. O mais engraçado dessa história é que, ele me inflou pra que eu conseguisse voar, só que ele mesmo acabou passando a vida no mesmo lugar. E eu nunca consegui julgar essa decisão, porque devia ter alguma coisa muito verdadeira por trás dessa escolha.

A gente ficou longe mesmo, longe por muito tempo. E não foi por briga nem nada, foi por ter escolhido caminhos diferentes. Foi porque um era contra a comunicação on-line e o outro achava que esse era o melhor jeito de conversar com alguém que estava longe. Foi porque a vida mudou tanto desde quando a gente trocava All Star, que parece que vai ser difícil encontrar o ponto em que a gente estaria juntos de novo. Foi porque em algum momento você sempre acredita que vai voltar a encontrar essas pessoas importantes que te fizeram ser quem você é.

E aí em uma terça-feira de manhã que tinha tudo pra ser comum, eu recebi essa notícia tão impossível de acreditar, uma notícia que acaba com qualquer esperança de encontro e que deixa um peso na consciência terrível de não ter procurado e conversado e aproveitado mais a presença dessa pessoa na minha vida.

É claro, a gente faz o que pode. O que eu consegui ter desse amigo é tudo o que ele tinha pra me oferecer e vice versa. E foi maravilhoso aprender, aos 16 anos, a olhar tudo de uma forma diferente da que eu estava acostumada, por mais que, muitas vezes, eu não concordasse. Foi bom saber que embora meus pais fossem ótimos, mas pouco livres, exista um universo de liberdade me esperando e que, esses amigos que ensinam muito, vivem muito, aprendem muito e deixam muita saudade.

É estranho o vazio, é difícil entender que, se eu quiser, já não posso mais estar perto. Ninguém deve ir, nem o cantor sertanejo, nem o meu amigo e nem ninguém que a gente ama. Mas eu queria ter a certeza que mudei tanto a vida de alguém igual ele mudou a minha. Isso sim é viver.

Por Giovana Barbieri